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Um Habitante de Carcosa - Ambrose Bierce (tradução)

Um Habitante de Carcosa foi publicado pela primeira vez em dezembro de 1886 no San Francisco Newsletter. Confira abaixo a tradução completa do conto de Ambrose Bierce.



UM HABITANTE DE CARCOSA


Ambrose Bierce



Existem muito tipos de morte—em algumas, o corpo perdura, e em outras, desaparece junto com o espírito. Isso ocorre apenas na solitude (tal é a vontade de Deus) e, não vendo nada no final, dizemos que o homem está perdido, ou ausente em uma longa jornada—a qual de fato ele fez. Mas alguma vezes acontece à vista de muitos, que se mostra como um testemunho abundante. Um tipo de morte em que o espírito também morre, é que essa ocorre enquanto o corpo ficou em vigor por muitos anos. Algumas vezes, como é comprovado, o espírito morre com o corpo, mas depois de um tempo se levanta no mesmo lugar onde o corpo se decompôs.


Ao ponderar sobre essas palavras de Hali (que Deus o tenha) e questionar seu significado completocomo aquele que possui certos indícios, mas também dúvida se algo não foi deixado para trás, mais do que havia discernidonão notei se havia me desviado até que um vento frio bateu no meu rosto e reviveu em mim a percepção do que estava ao meu redor. Observei com espanto que tudo parecia desconhecido. Em cada lado meu, se estendia a vastidão de uma planície sombria e desolada, coberta com uma abundante camada de grama seca, a qual farfalhava e assobiava ao vento de outono, com uma misteriosa e inquietante sugestão que só Deus sabe. Acima, se projetavam em longos intervalos, rochas estranhamente moldadas de cores sombrias, que pareciam se entender e trocar olhares entre si com um desconfortável significado, como se erguessem suas cabeças para observar a questão de algum evento previsto. Algumas poucas árvores arruinadas apareciam aqui e ali, como líderes nessa maligna conspiração de expectativa silenciosa.


O dia deve estar avançado, pensei, apesar do sol ainda estar visível, e embora consciente de que o ar estava puro e frio, minha consciência sobre o fato era mais mental do que físico—eu não tinha sensações de desconforto. Sobre toda paisagem sombria, uma marquise de nuvens baixas de cor de chumbo estava suspensa como uma maldição visível. Em tudo isso havia uma ameaça e um presságio—uma insinuação do mal, uma intimação de condenação. Pássaros, animais, ou insetos, não havia nenhum. O vento suspirava nos galhos vazios das árvores mortas e a grama cinza se curvava para sussurrar seu segredo terrível para a terra, mas nenhum outro som ou movimento quebrava a horrível paz daquele lugar sinistro.


Observei na forragem um número de pedras desgastadas pelo tempo, evidentemente moldadas com ferramentas. Elas estavam quebradas, cobertas de musgo e semi enterradas na terra. Algumas estavam prostradas, outras se inclinavam para vários ângulos, nenhuma era vertical. Obviamente, elas eram lápides de túmulos, apesar dos próprios túmulos já não existirem, nem como montes ou depressões, os anos nivelaram todos. Espalhados aqui e ali, os blocos massivos mostravam onde alguma tumba pomposa ou monumento ambicioso um dia se lançaram em seu débil desafio ao esquecimento. Essas relíquias pareciam tão antigas, que esses vestígios de vaidade e memoriais de afeição e piedade, tão maltratados e desgastados e manchados—tão negligenciado, abandonado e esquecido era o lugar, que não podia evitar pensar que eu era o descobridor do cemitério de uma raça pré histórica de homens, cujo próprio nome há muito tempo foi extinto.


Ocupado com essas reflexões, fiquei durante um tempo desatento à sequência de minhas próprias experiências, mas logo pensei, “Como cheguei aqui?”. Um momento de reflexão parecia ter esclarecido tudo e explicar ao mesmo tempo, apesar de uma forma inquietante, o caráter singular no qual minha imaginação havia investido tudo que vi ou ouvi. Eu estava doente. Lembrei-me agora que estava debilitado devido a uma febre repentina, e que minha família havia dito que em meus períodos de delírio, eu constantemente clamava por liberdade e ar, e havia sido mantido na cama para prevenir minha fuga para o ar livre. Agora eu havia me esquivado da vigilância dos meus cuidados e vaguei até aqui onde—até onde? Eu não conseguia presumir. Claramente eu estava a uma distância considerável da cidade que habitava—a antiga e famosa cidade de Carcosa.


Nenhum sinal de vida humana era visível ou audível em lugar algum, nenhuma fumaça subindo, nenhum cão de guarda latindo, nenhum mugido de gado, nenhum grito de crianças brincando—nada além daquele cemitério sombrio com seus ares de mistério e horror, devido ao meu próprio cérebro desordenado. Eu não estaria ficando delirante novamente ali, além da ajuda humana? Essa não era de fato uma ilusão da minha loucura? Gritei os nomes de minhas esposas e filhos, lancei minhas mãos em busca deles enquanto andava entre as pedras em ruínas pela grama seca.


Um barulho atrás de mim fez com que me virasse. Um animal selvagem—um lince—estava se aproximando. O pensamento veio a mim: se eu sucumbir aqui no deserto—se a febre voltar e eu vacilar, essa besta logo estará em minha garganta. Corri em sua direção, gritando. Ele trotou tranquilamente a um palmo de mim, e desapareceu atrás de uma rocha.


Um momento depois, a cabeça de um homem surgiu do chão a pouca distância. Ele estava subindo a encosta mais distante de uma colina baixa, cuja crista mal podia ser distinguida do nível geral. Sua figura inteira logo ficou à vista contra o fundo de nuvens. Ele estava metade nu, e metade vestido em peles. Seu cabelo estava desgrenhado, sua barba comprida e grosseira. Em uma mão, ele levava um arco e flecha, a outra segurava uma tocha flamejante com um longo traço de fumaça preta. Ele andava lenta e cautelosamente, como se temesse cair em algum túmulo aberto escondido pela grama alta. Essa estranha aparição causou surpresa, mas não alarme, e tomando tal caminho para interpretá-lo, encontrei-me com ele quase cara a cara, abordando-o com a saudação habitual, “Que Deus te proteja.”


Ele não deu atenção, nem deteve o passo.


— Bom forasteiro, — continuei, — estou doente e perdido. Peço-lhe que me direcione para Carcosa.


O homem irrompeu em um canto bárbaro em uma língua desconhecida, prosseguindo adiante.


Uma coruja em um galho de uma árvore apodrecida piou tristemente, e foi respondida por outra a uma distância. Olhando para cima, vi através de uma fissura repentina nas nuvens Aldebaran e o Hyades! Em tudo isso havia uma sugestão de que já era noite—o lince, o homem com a tocha, a coruja. No entanto eu via—eu via até mesmo as estrelas na ausência da escuridão. Eu via, mas aparentemente não era visto nem ouvido. Sobre qual terrível feitiço fui lançado?


Sentei-me no topo de uma grande árvore, considerando seriamente o que era melhor fazer. Que eu estava louco, não podia mais duvidar, ainda assim reconhecia uma base de dúvida nessa convicção. Da febre eu não tinha nenhum traço. Ademais, eu tinha uma percepção de euforia e vigor juntos que eram desconhecidos por mim—uma sensação de exaltação mental e física. Todos meus sentidos pareciam alertas, eu podia sentir o ar como uma substância portentosa, eu podia ouvir o silêncio.


Uma grande raiz da árvore gigante em cujo tronco eu me apoiava, abraçava em seu domínio um pedaço de pedra, uma parte que se projetava em direção a um recesso formado por outra raiz. Dessa forma, a pedra foi parcialmente protegida do tempo, apesar de estar consideravelmente decomposta. Suas bordas eram redondas, seus cantos comidos, e sua superfície profundamente sulcada e escamada. Partículas cintilantes de mica eram visíveis na terra ao seu redor—vestígios de sua decomposição. Aparentemente, essa pedra havia marcado o túmulo de onde essa árvore brotou eras atrás. As raízes dessa árvore haviam exatamente roubado o túmulo e feito da pedra uma prisioneira.


Um vento repentino afastou algumas folhas secas e ramos da face mais elevada da pedra. Eu vi as letras em baixo relevo de uma inscrição, e inclinei-me para lê-la. Deus do céu! Meu nome completo—a data de meu aniversário!—a data de minha morte!


Um raio de luz iluminou o lado inteiro da árvore quando, em meu terror, fiquei em pé em um salto. O sol estava nascendo no leste rosado. Fiquei entre a árvore e o amplo disco vermelho—nenhuma sombra escureceu o tronco!


Um coro de lobos uivantes saudou o crepúsculo. Eu os vi sentando-se em seus traseiros, individualmente e em grupos, em cumes de montes irregulares e túmulos, preenchendo metade da minha vista deserta e se estendendo ao horizonte. E então eu soube que essas eram as ruínas da antiga e famosa cidade de Carcosa.


Tais foram os fatos transmitidos ao médium Bayrolles, pelo espírito de Hoseib Alar Robardin.



Tradução: Mimi Zanetti


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