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Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (2019)

"Nós, serial killers, somos seus filhos, seus maridos, estamos em toda parte. E haverá mais de suas crianças mortas amanhã. Vocês sentirão o último suspiro deixando seus corpos. Vocês estarão olhando dentro de seus olhos. Uma pessoa nessa situação é Deus!”



Primeiramente, Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (em inglês Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile) não é um filme sobre os assassinatos ou a vida de Ted Bundy, e sim uma obra baseada no livro escrito por sua ex-noiva, com quem esteve durante seis anos. Essa é uma informação importante pois quem não conhece o serial killer ou seus crimes pode ficar confuso com o enredo em um primeiro momento.


O filme foi lançado no Festival de Sundance em janeiro de 2019 recebendo críticas mistas, e posteriormente foi disponibilizado na plataforma da Netflix americana em 3 de maio e estreará nos cinemas brasileiros em 25 de julho.


Extremely Wicked traz Zac Efron no papel de Ted Bundy, serial killer norte americano que tirou a vida de mais de 30 mulheres na década de 70. Em 1969, Ted conheceu a secretária Elizabeth Kloepfer, interpretada aqui por Lily Collins, com quem manteve um relacionamento até que fosse definitivamente encarcerado.


Zac Efron e Ted Bundy (acima), Lily Collins e Elizabeth Kloepfer (abaixo.

Em alguns momentos, a narrativa passa a impressão de romantizar o assassino, conhecido pelo seu charme e por ter arrebatado o coração de diversas admiradoras (sim, um assassino de mulheres com admiradoras). Porém, o foco principal é o relacionamento entre Ted e Liz, especialmente toda a dor e culpa que ela carregava. Todos esses sentimentos foram transformados em um livro, mencionado no primeiro parágrafo, chamado The Phantom Prince (sem título ou tradução em português, confiram a tradução de seu prefácio abaixo).


Talvez a falta de detalhes sobre os crimes decepcione alguns espectadores mais ávidos por sangue, pois o filme é definitivamente um drama biográfico. Zac Efron aparece impecável no papel de Bundy, e Lily Collins também faz um bom trabalho, expondo bem toda a angústia sentida pela personagem.



Ainda no elenco temos uma pequena participação de James Hetfield, vocalista do Metallica como o policial que prende Bundy pela primeira vez. Jim Parsons (de The Big Bang Theory) aparece como o advogado de acusação, John Malkovich (que dispensa apresentações) é o juiz que dá a sentença a Bundy, e Kaya Scodelario é Carole Ann Boone, amiga e esposa final do assassino. E lembram do menininho de O Sexto Sentido, Haley Joel Osment? Ele cresceu, e faz o papel do colega de trabalho de Elizabeth.


John Malkovich e Juiz Edward Cowart (acima), Kaya Scodelario e Carole Ann Boone (abaixo).

Um grande acerto do filme é a utilização de falas e algumas imagens reais, seu próprio título é uma das frases ditas pelo juiz Edward Cowart no julgamento de Bundy. Durante os créditos finais são exibidos vídeos reais do assassino que viraram cenas no filme.


Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal é um bom filme, mas que fica muito melhor se acompanhado da série documental Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy, disponível na Netflix. O documentário composto de quatro episódio de aproximadamente 40 minutos cada, é significativo para entendimento da fama de Bundy, seu caráter manipulador e seus crimes.



Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (2019)

Direção: Joe Berlinger

Roteiro: Michael Werwie

Duração: 108 minutos


Confira abaixo o prefácio do livro de Elizabeth Kloepfer, assinado como Elizabeth Kendall e publicado em 1981 (Bundy teve seu último julgamento em 1979 e foi executado dez anos depois):


The Phantom Prince - Elizabeth Kendall

Prefácio


"Ao escrever esse livro, passei por uma ampla variedade de sentimentos em relação ao Ted. Às vezes, a intensidade do meu amor por ele me assustava. Quando eu pensava sobre alguns dos momentos felizes que compartilhamos, eu era dominada pelo sentimento de que ele não deveria estar na cadeia. Mas assim que terminei de escrever, aqueles sentimentos se tornaram em indignação pois ele havia friamente, caprichosamente matado todas aquelas mulheres. Se passaram sete anos desde que a primeira nuvem de preocupação passou pela minha cabeça, e já faz três anos que eu soube que meus temores eram reais, ainda assim alguns dias me atingem como se fosse a primeira vez.


Em 1974, quando as vítimas estavam desaparecendo, eu me identifiquei com elas apesar de ser mais velha, e temi pela minha própria segurança. Sete anos depois eu escrevi minha história, eu as identifiquei com a minha filha e pude imaginar a dor que Ted Bundy causou em seus pais e o terrível vazio deixados por suas mortes.


Apesar de toda destruição que ele causou ao seu redor, eu ainda me importo com que aconteça ao Ted. Eu aceitei que uma parte de mim sempre amará uma parte dele. Entretanto, ele já não é mais parte do meu dia a dia. Escrever esse livro foi como ter um tumor removido do meu cérebro.


Inocentemente, eu pensei que poderia carregar para o túmulo o segredo do meu envolvimento com a prisão do Ted, mas não muito depois de sua condenação, os repórteres, escritores e detetives particulares começaram a aparecer no meu escritório e casa, com todas as suas próprias razões do porquê eu deveria lhes contar sobre o que realmente aconteceu. Eu recusei. Eu sabia que minha razões e motivações nunca seriam compreensíveis a não ser que eu contasse minha história do começo ao fim. Agradeço a Dan Levant por me dar essa oportunidade. Gostaria também de agradecer Ann Adams e minha advogada, Glenna Hall, por sua ajuda. Um agradecimento especial para o meu chefe pelo suporte moral que me deu através daqueles anos difíceis, e por seu apoio contínuo enquanto eu escrevia esse livro.


Uma das pessoas que leu o manuscrito do livro disse uma coisa que me perturbou: "Você está pedindo às pessoas que sintam pena de você. Meu Deus, pessoas morreram! Você é uma das sortudas -- você sobreviveu!" Eu quero responder isso. Nunca esqueço que mulheres reais foram assassinadas por razão alguma além de serem atraentes e amigáveis. A terrível realidade de suas mortes se tornou minha realidade também. A tragédia delas era o meu trauma. Durante muito tempo eu vivi com a culpa de imaginar se Ted me via naquelas mulheres, se matá-las era um esforço doentio e compulsivo para matar algo que ele odiava em mim. Sou grata por ter sobrevivido, grata pela chance de resolver os meus problemas, grata pela resiliência que Deus dá aos humanos.


E também sou grata por meus pais e minha família que me ama incondicionalmente, pela minha tia de 84 anos que me ensina a viver e a amá-la por seu exemplo, pelos meus amigos que sempre estiveram comigo quando precisei (e eu preciso muito deles), por Hank que ajudou a me libertar de um relacionamento destrutivo, por Angie que me ajuda espiritualmente, por meu padrinho dos Alcoólicos Anônimos que me fazer aprender mais sobre mim mesma, e acima de tudo pela minha filha, que é uma jovem mulher muito muito especial."


ELIZABETH KENDALL


Ted e Liz