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Piquenique na Estrada - Arkádi e Boris Strugátski (resenha)

Piquenique na Estrada é um livro de ficção científica da União Soviética, publicado pela primeira vez na revista literária Avrora em 1972, escrito pelos irmãos Arkádi (1925 - 1991) e Boris Strugátski (1933 - 2012).



A história mostra uma Terra após o evento da Visitação, onde alienígenas vieram, deixaram suas tralhas e foram embora. Os locais das visitas, as Zonas, estão dispostos ao redor do mundo, e neste livro são retratados os eventos referentes à fictícia cidade de Harmont. Nesses locais são encontrados diversos tipos de equipamentos, e em sua grande maioria, com propósito desconhecido para os homens. Aqueles que se aventuram nas Zonas, afim de buscar as quinquilharias para vender clandestinamente, são chamados de stalkers. E é a história de um deles que acompanharemos ao longo do livro, que se inicia 13 anos após a Visitação.


Quando peguei o livro e vi que se tratava de um romance soviético, achei que fosse me deparar com uma grande propaganda comunista, mas pelo contrário, o ponto mais importante da obra é a própria insignificância da humanidade. De repente, aliens vieram ao planeta, fizeram seu piquenique (como propõe um dos cientistas retratados no livro), deixaram seu lixo e foram embora, possivelmente com total indiferença aos seres que vivem aqui. Muitos os objetos encontrados parecem sem propósito, enquanto alguns poucos trazem algum benefício real. E dessa forma as pessoas seguem suas vidas.


"Agora sabemos que, para a humanidade de um modo geral, o fenômeno da Visitação passou quase sem deixar marcas. Para a humanidade, tudo passa sem deixar marcas. (...) Eu, porém, há muito parei de discutir sobre a humanidade em sua totalidade. Pois é um sistema extremamente estacionário, não há como atingi-lo."

A obra é bem concisa, não há enrolação e nenhum rebuscamento de linguagem. A belíssima edição brasileira, publicada pela Editora Aleph em 2017, foi traduzida diretamente do russo por Tatiana Larkina, e pode ser encontrada em versão física (capa dura) e digital.


A publicação: O romance precisou percorrer um longo caminho até que conseguisse ser publicado na forma de livro na União Soviética. Como é descrito no posfácio, foram necessários 8 anos para que sua publicação fosse feita, porém completamente censurado. Como comenta Bóris: "Além disso, o romance certamente não possuía qualquer insinuação sobre a ordem vigente; muito pelo contrário, até transcorria conforme a vigente ideologia antiburguesa... Então por que, segundo quais motivos ocultos, misteriosos ou diabólicos, Piquenique foi condenado a uma verdadeira peregrinação editorial de mais de oito anos?"


Arkádi e Boris Strugátski

De fato, as editoras viam o romance como uma ameaça à conduta moral da Juventude Comunista, por conter comportamento amoral, violência física e vocabulário vulgar. Somente na década de 1990, os autores conseguiram publicar sua versão original. É o livro mais popular e mais traduzido da União Soviética.


A adaptação: em 1979, foi lançado um filme vagamente baseado no livro, dirigido pelo cineasta Andrei Tarkovsky e roteiro assinado pelos Strugátski. Três personagens estão prestes a entrar na Zona, o primeiro ato é inteiramente filmado em preto e branco, e há uma transição para o colorido quando eles de fato entram no local. É uma obra que dura 163 minutos e agrada bem mais quem gosta de cinema cult, uma vez que o ritmo é lento e cheio de simbolismos e filosofia. Está disponível no youtube com legendas em inglês.