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Os Gatos de Ulthar - H.P. Lovecraft (conto traduzido)

Os Gatos de Ulthar (The Cats of Ulthar) é um conto escrito em 1920 por H.P. Lovecraft, e conta a história de uma cidade fictícia onde é proibido matar gatos. A lei surgiu no local após o gato de um integrante de uma caravana de andarilhos desaparecer e ser morto por um casal de assassinos que morava na cidade.



O conto tem influência de Lord Dunsany e era uma das preferidas de Lovecraft. Sabe-se que o autor tinha grande apreço pelos bichanos. Sua primeira publicação foi em novembro de 1920 no jornal amador Tryout. Confira a tradução na íntegra abaixo, ou baixe o e-book formatado PDF no link: https://www.docdroid.net/25x8OyP/os-gatos-de-ulthar-hp-lovecraft-pdf


Os Gatos de Ulthar

H.P. Lovecraft


Falam por aí que em Ulthar, que fica além do rio Skai, nenhum homem pode matar um gato; e nisso posso acreditar verdadeiramente enquanto olho aquele se senta ronronando em frente ao fogo. Pois o é gato é enigmático, e está perto de coisas estranhas que os homens não podem ver. Ele é a alma do Egito Antigo, e portador das histórias das cidades antigas de Meroe e Ophir. Ele é da espécie dos senhores da selva, e herdeiro dos segredos da remota e sinistra África. A Esfinge é sua prima, e ele fala seu idioma; mas ele não é tão antigo quanto a Esfinge, e se lembra daquilo que ela esquecera.


Em Ulthar, muito antes que os burgueses proibissem a matança de gatos, lá morava um velho aldeão e sua esposa, que regojizavam-se em aprisionar e matar os gatos de seus vizinhos. Por que eles faziam isso, eu não sei; exceto que muitos odeiam as vozes dos gatos à noite, e levam a mal o fato de gatos correrem furtivamente por quintais e jardins ao pôr-do-sol. Mas qualquer que seja a razão, esse velho homem e sua mulher sentiam prazer em aprisionar e matar cada gato que se aproximasse da cabana deles; e devido a alguns sons ouvidos depois do anoitecer, muitos camponeses imaginavam que a maneira de matar era extremamente peculiar. Mas os camponeses não discutiam tais coisas com o velho homem e sua esposa; por causa da expressão habitual dos rostos ressequidos dos dois, e porque a cabana deles era tão pequena e tão sombriamente escondida embaixo de carvalhos esparsos nos fundos de um pátio negligenciado. Na verdade, assim como os donos de gatos odiavam essas pessoas, eles a temiam mais ainda; e ao invés de repreendê-los como assassinos brutais, eles apenas tomavam conta para que nenhum animal de estimação querido perambulasse em direção à cabana remota embaixo das árvores sombrias. Quando por algum descuido inevitável um gato desaparecesse, e os sons fossem ouvidos depois do anoitecer, o perdedor iria apenas lamentar imponentemente; ou se consolaria agradecendo ao Destino por não ter sido um de seus filhos que assim tivesse desaparecido. Pois o povo de Ulthar era simples, e não sabia de onde vieram todos os seus gatos.


Um dia, uma caravana de estranhos andarilhos do sul adentrou as estreitas ruas de paralelepípedos de Ulthar. Eles eram andarilhos escuros, e diferentes de outros povos itinerantes que passavam pela vila duas vezes por ano. No comércio, eles faziam previsões em troca de prata, e compravam alegres miçangas dos mercadores. Qual era a terra de onde esses andarilhos vieram, ninguém sabia; mas pôde-se ver que eram dados a estranhas orações, e que pintavam nas laterais de suas carroças estranhas figuras com corpos humanos e cabeças de gatos, falcões, carneiros e leões. E o líder da caravana usava um adereço na cabeça com dois chifres com um curioso disco entre eles.


Havia nessa caravana singular, um pequeno garoto sem pai nem mãe, apenas com um pequeno gatinho preto para estimar. A peste não foi boa com ele, ainda assim havia lhe deixado essa coisinha peluda para mitigar sua dor; e quando se é muito jovem, pode-se encontrar grande alívio nos gracejos alegres de um gatinho preto. Então o garoto que o povo negro chamava de Menes, sorria com mais frequência do que chorava, quando se sentava brincando com seu gracioso gatinho nos degraus de um vagão estranhamente pintado.


Na terceira manhã da estadia dos andarilhos em Ulthar, Menes não conseguia encontrar seu gatinho; e quando ele estava aos prantos no comércio, alguns camponeses lhe contaram a respeito do velho homem e sua esposa, e os sons ouvidos à noite. E quando ele ouviu essas coisas, seu pranto deu lugar à meditação, e finalmente à oração. Ele esticou os braços em direção ao sol, e rezou em um idioma que nenhum camponês conseguiu entender; embora, de fato, os camponeses não tenham tentado muito entender, uma vez que a atenção deles estava voltada para o céu e para as estranhas formas que as nuvens assumiam. Era muito peculiar, mas enquanto o pequeno garoto proferia sua súplica, figuras nebulosas e sombrias de coisas exóticas pareciam se formar acima; figuras de criaturas híbridas com coroas ladeadas por chifres. A natureza é cheia de tais ilusões para impressionar os mais imaginativos.


Naquela noite, os andarilhos deixaram Ulthar, e nunca mais foram vistos. E os residentes ficaram incomodados quando perceberam que não se encontrava mais nenhum gato na vila. De cada lar, o gato familiar havia desaparecido; gatos grandes e pequenos, pretos, cinzas, listrados, amarelos e brancos. Velho Kranon, o burgomestre, jurou que o povo negro havia levado os gatos embora em vingança pela morte do gatinho de Menes; e amaldiçoou a caravana e o pequeno garoto. Mas Nith, o magrelo tabelião, declarou que o velho aldeão e sua esposa eram os suspeitos mais prováveis; pois o ódio deles por gatos era notório e cada vez mais audacioso. Ainda assim, ninguém ousou queixar-se para o sinistro casal; nem mesmo quando o pequeno Atal, filho do estalajadeiro, jurou ter visto ao anoitecer todos os gatos de Ulthar naquele maldito quintal embaixo das árvores, caminhando bem lenta e solenemente em um círculo ao redor da cabana, lado a lado, como em uma performance de um desconhecido ritual de bestas. Os camponeses não tinham como acreditar em um garotinho tão pequeno; e embora temessem que o casal maligno tivesse atraído magicamente os gatos para a morte, eles preferiam não repreender o velho aldeão até que o encontrassem fora de seu escuro e repulsivo quintal.


Então Ulthar adormeceu com uma raiva inútil; e quando as pessoas despertaram ao amanhecer -- eis que! cada gato estava de volta ao seu costumeiro lar! Grandes e pequenos, pretos, cinzas, listrados, amarelos e brancos, nenhum estava faltando. Os gatos apareceram bem lustrosos e gordos, e sonoros com o ronronar contente. Os cidadãos conversavam uns com os outros sobre o caso, e não se maravilhavam nenhum pouco. Velho Kranon insistiu novamente que fora o povo negro que os havia levado, uma vez que nenhum gato voltava vivo da cabana do velho homem e sua esposa. Mas todos concordaram em uma coisa: que a recusa de todos os gatos em comer suas porções de carne ou beber seus pires de leite era extremamente curiosa. E por duas semanas os lustrosos e preguiçosos gatos de Ulthar não tocaram suas comidas, mas apenas cochilaram em frente aos fogos ou embaixo do sol.


Passou-se uma semana inteira até que os camponeses notassem que nenhuma luz aparecia depois do pôr-do-sol nas janelas da cabana embaixo das árvores. Então, o magrelo Nith observou que ninguém havia visto o velho homem e sua esposa desde a noite que os gatos desapareceram. E na semana seguinte, o burgomestre decidiu superar seus medos e bater à porta da habitação estranhamente silenciosa, como uma questão de dever, embora ao fazer isso ele levou consigo Shang, o ferreiro, e Thul, o pedreiro, como testemunhas. E quando eles arrombaram a frágil porta, encontraram apenas isso: dois esqueletos humanos cuidadosamente limpos no chão de terra, e um número de estranhos besouros rastejando nos cantos obscuros.


Em seguida, houve muita conversa entre os burgueses de Ulthar. Zath, o legista, discutiu demoradamente com Nith, o magrelo tabelião; e Kranon e Shang e Thul foram cobertos de perguntas. Até mesmo o pequeno Atal, o filho do estalajadeiro, foi cuidadosamente questionado e contemplado com uma guloseima como recompensa. Eles falaram sobre o velho aldeão e sua esposa, sobre a caravana dos andarilhos escuros, do pequeno Menes e seu gatinho preto, das preces de Menes e do céu durante aquela oração, dos feitos dos gatos na noite em que a caravana partiu, do que foi encontrado depois na cabana embaixo das árvores escuras naquele quintal repulsivo.

E por fim, os burgueses aprovaram aquela extraordinária lei que é contada pelos comerciantes em Hatheg e discutida pelos viajantes em Nir; especificamente, que em Ulthar nenhum homem pode matar um gato.


Tradução: Mimi Zanetti

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