• Mimi Zanetti

O Rei de Amarelo - Robert W. Chambers (resenha)

"Peço a Deus que amaldiçoe o escritor, pois ele amaldiçoou o mundo com esta bela, estupenda criação, terrível em sua simplicidade, irresistível em sua verdade - palavra que agora estremece diante do Rei de Amarelo."


O Rei de Amarelo é um livro de contos do escritor americano Robert W. Chambers, publicado pela primeira vez em 1895. Suas histórias, conectadas de diferentes formas, podem ser divididas em duas partes: as cinco primeiras sendo de horror sobrenatural, e as cinco últimas escritas em um tom que remete aos movimento literários do Realismo e Romantismo.


Na casa dos seus 20 anos, Robert W. Chambers estudou artes por quase uma década na França, e isso se reflete em seu trabalho. Quase todas suas histórias dessa obra mostram artistas e estudantes franceses e americanos, em uma vida decadente ambientada na França.



Entre os elementos que conectam os contos, há o livro da peça O Rei de Amarelo. Quem o lê, fica louco ou tem um destino terrível. Há também uma entidade maligna de mesmo nome, e um misterioso símbolo, o Emblema Amarelo. Alguns termos usados foram emprestados de obras de Ambrose Bierce como Hali, Hastur e Carcosa.


Segue aqui uma visão os cinco primeiros contos que marcam a parte sobrenatural do livro:


O Reparador de Reputações: se passa em 1920 nos Estados Unidos (tendo sido escrito em 1890), mostrando uma sociedade utópica em que o suicídio é aceito e promovido pelo próprio governo. Mas seu tema principal gira em torno da loucura de seu protagonista, Hildred Castaigne, que se auto proclama um rei. Há a sugestão de que ele tenha lido o livro da peça amaldiçoada.


A Máscara: três amigos, sendo eles dois artistas e a amada de ambos, são os protagonistas dessa história. O escultor mostra a seu amigo, o narrador, sua descoberta de um líquido que transforma tudo em mármore. O Rei de Amarelo aparece em delírios.


No Pátio do Dragão: o narrador da história se encontra em uma igreja em Paris, quando o som do órgão começa a soar de forma desagradável em seus ouvidos, mas ninguém mais no local parece perceber a mudança. Logo, ele declara ter lido O Rei de Amarelo, e começa a pensar estar sendo perseguido pelo organista da Igreja.


O Emblema Amarelo: essa história se passa em Nova York (mesmo local do primeiro conto), seus personagens são o Sr. Scott, um artista e Tessie, sua modelo. Um dia ao olhar pela janela, ele vê um homem cujo rosto lhe lembra um verme, causando-lhe repugnância. Por coincidência (ou não), esse mesmo homem apareceu nos sonhos de Tessie. É o último conto que menciona O Rei de Amarelo.


A Demoiselle d'Ys: Phillip é um americano perdido em uma região desolada da Bretanha, até que encontra uma falcoeira (que treina e cria falcões para caça) que lhe oferece hospedagem. Aqui, o nome Hastur é utilizado para nomear um dos falcoeiros, sem nenhuma relação com o Hastur dos Mitos de Cthulhu.


Depois dessas histórias, temos uma série de poemas em prosa que marca a transição do livro, da parte sobrenatural à realista. Particularmente, eu não gostei dessa segunda parte. Algumas versões publicadas após a morte do autor, chegaram a omitir esses textos, mantendo apenas a primeira parte. De qualquer forma, é uma obra importante para a literatura, que também marca presença na cultura pop atual.


Alguns autores já tentaram compor o que seria a peça O Rei de Amarelo, sendo o mais bem sucedido deles o escritor James Blish em seu conto More Light, que pode ser encontrado na coletânea The Hastur Cycle da Chaosium (versão somente em inglês).


A edição que eu li foi da Intrínseca, com uma ótima tradução de Edmundo Barreto, e introdução e comentários de Carlos Orsi. No Brasil você também pode encontrar a versão da Editora Clock Tower, e a HQ O Rei Amarelo da Editora Draco composta por quadrinhos de histórias inspiradas no tema.