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O Forasteiro - H.P. Lovecraft (tradução)

O Forasteiro (The Outsider) é um conto escrito por H.P. Lovecraft entre março e agosto de 1921, e sua primeira publicação foi em 1926 na Weird Tales.



Sua narrativa traz um recluso, provavelmente um nobre, vivendo em um castelo por anos, sem conhecer o exterior, a luz do dia e sua própria aparência. Sua vivência é solitária, não há outras pessoas no castelo, e suas companhias são apenas livros e poucos animais que habitam a imensidão escura onde vive. Seu anseio pela luz faz com que se arrisque a sair do castelo e encare uma realidade desconhecida até então.


Este conto remete ao estilo escritos de Edgar Allan Poe, e traz temas como a decadência humana e a melancolia. É uma narrativa predominantemente gótica e não faz parte dos Mitos de Cthulhu (exceto por breves menções a esse universo).


Leia abaixo o conto na íntegra:


O FORASTEIRO


H.P. Lovecraft



Infeliz é aquele a quem as memórias de infância trazem apenas medo e tristeza. Miserável é aquele que relembra das horas solitárias em câmaras vastas e sombrias, de suportes marrons e enlouquecedoras fileiras de livros antigos, ou das vigílias aterradoras nos bosques crepusculares de árvores grotescas e gigantescas carregadas de cipós, que silenciosamente balançam seus galhos retorcidos lá em cima. Foi o que os deuses me concederam... para mim, o atordoado, o desapontado, o árido, o despedaçado. E ainda assim me sinto estranhamente contente, e me apego com desespero àquelas memórias ressequidas quando minha mente momentaneamente ameaça ir além, ao outro.

Não sei onde nasci, exceto que o castelo era infinitamente antigo e infinitamente horrível, cheio de passagens escuras, e com tetos tão altos onde os olhos encontrariam apenas teias e sombras. As pedras nos corredores decadentes pareciam sempre terrivelmente úmidas, e havia um odor amaldiçoado por todo lugar, como o de cadáveres empilhados de gerações mortas. Nunca havia luz, então, às vezes eu costumava acender velas e observá-las demoradamente em busca de alívio. Também não havia nenhum sol lá fora, uma vez que as terríveis árvores cresceram além da mais alta torre acessível. Havia uma torre negra que alcançava diretamente o céu desconhecido acima das árvores, mas estava parcialmente destruída e não era possível subir nela, exceto através de uma escalada praticamente impossível pela parede nua, pedra por pedra.

Devo ter permanecido anos nesse lugar, mas não consigo precisar quanto tempo. Alguém deve ter cuidado de minhas necessidades, ainda assim não consigo me lembrar de qualquer pessoa exceto eu mesmo, ou qualquer coisa viva além dos silenciosos ratos, morcegos e aranhas. Creio que, seja lá quem cuidou de mim, deve ter sido de uma idade surpreendentemente avançada, pois minha primeira concepção de uma pessoa viva era de alguém ironicamente como eu, porém distorcido, atrofiado e decadente como o castelo. Para mim, não havia nada grotesco nos ossos e esqueletos que se espalhavam entre as pedras da cripta bem abaixo nos alicerces. Eu fantasticamente associava essas coisas com eventos do dia a dia, e os julgava mais naturais que as pinturas coloridas de seres vivos que encontrei em muitos livros embolorados. De tais livros, aprendi tudo o que sei. Nenhum professor me guiou ou estimulou, e apesar de ter lido sobre a fala, nunca pensei em tentar falar em voz alta. Minha aparência era um assunto igualmente impensado, pois não havia espelhos no castelo, e por instinto eu simplesmente me considerava semelhante às figuras joviais que via desenhadas e pintadas nos livros. Eu estava convencido que era jovem porque me lembrava de tão pouco.

Lá fora, cruzando o fosso pútrido, eu sempre me deitava abaixo das escuras árvores mudas e sonhava por horas com o que lia nos livros, e saudosamente costumava me imaginar entre multidões felizes no mundo ensolarado além das florestas infinitas. Uma vez tentei escapar da floresta, mas conforme me afastava do castelo, a penumbra ficava cada vez mais densa e o ar se enchendo de um medo inquietante, então voltei correndo freneticamente para que não me perdesse em um labirinto de silêncio anoitecido.

Através de intermináveis crepúsculos, sonhei e esperei, apesar de não saber o que esperava. Então, na solidão sombria, meu anseio por luz cresceu tão freneticamente que eu não conseguia mais aguardar, e levantei minhas mãos suplicantes para a solitária torre negra em ruínas, que se erguia acima da floresta em direção ao desconhecido céu exterior. E finalmente decidi escalar aquela torre, ainda que pudesse cair, uma vez que era melhor vislumbrar o céu e morrer, do que viver sem jamais ter contemplado a luz do dia.

No abafado crepúsculo, subi pela escada de pedras desgastadas e envelhecidas até que alcancei o ponto onde cessava, e em seguida agarrei-me perigosamente às pequenas bases que conduziam para cima. O cilindro de pedras morto e sem escadas era medonho e terrível. Escuro, destruído, deserto e sinistro, com morcegos assustados cujas asas não faziam barulho. Mas ainda mais medonha e terrível era a lentidão do meu progresso, pois eu escalava como podia, a escuridão à frente não diminuía, e senti um novo arrepio como se uma forma assombrada e venerável tivesse me encontrado. Estremeci quando me perguntei por que eu não havia chegado à luz, e teria olhado para baixo se tivesse coragem. Imaginei que a noite tivesse caído repentinamente, e tateei em vão em busca de uma janela, através da qual eu poderia dar uma olhada para fora e tentar calcular a altura que havia atingido.

De repente, depois de uma impressionante escalada cega naquele precipício côncavo e desesperador, senti minha cabeça tocar algo sólido, e assim eu soube que havia alcançado o teto, ou pelo menos algum tipo de piso. Na escuridão, levantei minha mão livre e testei a barreira, encontrando-a pétrea e imóvel. Então, fiz um percurso mortal circundando a torre, agarrando-me a qualquer coisa que a parede viscosa podia fornecer, até que, finalmente, minha mão encontrou uma barreira que cedia, e pude voltar a subir, empurrando a laje ou porta com a cabeça enquanto usava as mãos em minha receosa escalada. Nenhuma luz se revelava acima, e conforme minhas mãos subiam, eu soube que minha escalada estava encerrada por enquanto, pois a laje era o alçapão de uma abertura que conduzia à superfície de pedra do andar de circunferência ainda maior que a torre inferior, sem dúvida o piso de uma elevada e vasta câmara. Deslizei cautelosamente através dela, e tentei impedir que a pesada laje caísse de volta no lugar, mas falhei na última tentativa. Assim que me deitei exausto no chão de pedras, ouvi os arrepiantes ecos de sua queda, desejando que conseguisse levantá-la novamente quando fosse necessário.

Acreditando estar agora a uma prodigiosa altura, bem acima dos malditos galhos da floresta, levantei-me do chão e tateei em busca de janelas que me permitiriam pela primeira vez ver o céu, a lua e as estrelas sobre as quais li a respeito. Mas foi apenas decepção, pois tudo que encontrei eram vastas estantes de marmore, carregando odiosas caixas retangulares de tamanho perturbador. Quanto mais eu refletia, mais me questionava quais segredos arcaicos teriam persistido neste apartamento suspenso por tantos éons. Então, inesperadamente, minhas mãos alcançaram uma passagem onde se encontrava um portal de pedra, com uma áspera cinzelagem. Ao testá-lo, encontrei-o trancado, mas com uma suprema explosão de força superei todos os obstáculos e consegui abrí-lo para dentro. Ao fazê-lo, veio-me o mais puro êxtase que já conheci, pois dali emanava um brilho tranquilizante através de uma grade de ferro ornamentada, e mais além de uma curta escada de pedras que ascendia da passagem recém descoberta, estava a lua cheia radiante, que eu nunca havia visto antes exceto em sonhos e em vagas visões que não ouso chamar de memórias.

Imaginando agora ter alcançado o próprio pináculo do castelo, comecei a me apressar pelos poucos degraus além da porta, mas a repentina ocultação da lua por uma nuvem me fez tropeçar, e fiz meu caminho mais lentamente no escuro. Ainda estava bem escuro quando alcancei a grade... a qual testei cautelosamente e encontrando-a destrancada, mas que não abri por medo de cair da incrível altura que eu havia escalado. Então a lua surgiu.

O mais demoníaco de todos os choques é procedente do abissalmente inesperado e grotescamente inacreditável. Nada do que eu havia sofrido antes poderia comparar-se em terror com o que eu via agora, com todos os prodígios bizarros que aquela visão sugeria. A vista em si era tão simples quanto estonteante, pois era simplesmente isso: ao invés da perspectiva vertiginosa de topos de árvores vistos de uma elevada eminência, se estendiam no mesmo nível, através das grades ao meu redor, nada menos do que a terra firme, adornada e diversificada por lajes de mármore e colunas, e ensombrada por um antigg igreja de pedras, cujo campanário em ruínas brilhava espectralmente à luz da lua.

Semiconsciente, abri a grade e cambaleei para fora, sobre o caminho de cascalho branco que se estendia em duas direções. Minha mente, atordoada e caótica como estava, ainda guardava a ânsia pela luz. Eu não sabia e nem me importava se minha experiência era insanidade, sonho ou mágica, mas estava determinado a contemplar a luminosidade e a alegria a qualquer custo. Eu não sabia quem ou o que eu era, ou como seriam as redondezas, no entanto, enquanto continuava cambaleando adiante, me dei conta de uma espécie de memória latente assustadora que fez meu progresso não ser completamente fortuito. Passei por baixo de um arco para fora da região de lajes e colunas, e vaguei através do campo aberto, às vezes seguindo a estrada visível, e às vezes deixando-a para trilhar através das pradarias onde apenas algumas ruínas eventuais evidenciavam a antiga presença de uma estrada esquecida. Em uma ocasião, nadei através de um rio veloz onde as ruínas de uma alvenaria musgosa contavam que lá existiu uma ponte há muito desaparecida.

Duas horas devem ter se passado antes que eu alcançasse o que parecia ser meu objetivo, um castelo cheio de heras em um parque densamente arborizado, enlouquecedoramente familiar, ainda assim cheio de estranhezas desconcertantes para mim. Vi que o fosso estava preenchido, e quem algumas das tão conhecidas torres foram demolidas, ao mesmo tempo que haviam surgido novos flancos para confundir o observador. Mas o que observei com maior interesse e deleite foram as janelas abertas, esplendidamente brilhantes e emitindo o som da mais alegre festança. Avançando para uma delas, olhei para dentro e vi um grupo de pessoas estranhamente trajadas, divertindo-se e conversando intensamente uns com os outros. Aparentemente, eu nunca havia ouvido a fala humana antes e podia apenas adivinhar vagamente o que era dito. Alguns dos rostos pareciam portar expressões que traziam recordações incrivelmente remotas, outras eram completamente desconhecidas.

Então, passei através da janela inferior até a sala intensamente iluminada, enquanto me movi, meu único momento intenso de esperança se tornou minha mais escura convulsão de desespero e compreensão. O pesadelo veio rápido, pois assim que entrei, aconteceu imediatamente uma das mais aterrorizantes demonstrações que já concebi. Eu mal havia cruzado o parapeito quando recaiu sobre toda multidão um repentino e não anunciado medo de hedionda intensidade, distorcendo cada rosto e evocando os mais horríveis gritos de quase todas as gargantas. A evasão foi universal, e no clamor e pânico, vários caíram desmaiados e foram arrastados pelos seus companheiros enlouquecidamente em fuga. Muitos cobriam os olhos com as mãos, e mergulhavam cega e desajeitadamente em suas corridas para escapar, derrubando a mobília e tropeçando contra as paredes antes que conseguissem alcançar uma das muitas portas.

Os lamentos eram chocantes, e assim que fiquei sozinho e atordoado no aposento iluminado, ouvindo os ecos desaparecendo, estremeci pensando no que poderia estar oculto à espreita perto de mim. Em uma inspeção breve, o local parecia deserto, mas quando me movi em direção a uma das alcovas, pensei ter detectado uma presença, uma sugestão de movimento além do arco dourado da entrada que levava a um cômodo diferente, mas de alguma forma similar. Assim que me aproximei do arco, comecei a perceber a presença mais claramente, e então, com o primeiro e último som que já proferi, contemplei em totalidade a assustadora nitidez da inconcebível, indescritível e imencionável monstruosidade que havia, por sua simples aparência, alterado uma alegre comitiva para uma manada de fugitivos delirantes.

Não consigo nem sugerir com o que se parecia, pois era uma combinação de tudo que é sujo, estranho, indesejável, anormal e detestável. Era a sombra repulsiva da decadência, antiguidade e desolação, o fantasma pútrido e encharcado de uma revelação doentia, a terrível exposição do que a piedosa terra deveria sempre esconder. Deus sabe que não era deste mundo, ou não mais desse mundo, ainda para meu horror, vi em seus contornos corroídos de ossos expostos uma farsa abominável em forma humana que me fitava, e em suas desintegradas roupas bolorentas uma característica indizível que me gelou ainda mais.

Eu estava quase paralisado, mas não o suficiente para não tentar um esforço débil para fugir. Um tropeço para trás não conseguiu quebrar o feitiço em que o inominável monstro sem voz me mantinha. Meus olhos, enfeitiçados pelas órbitas cristalinas que fitavam asquerosamente para dentro deles, se recusavam a fechar, apesar de estarem piedosamente borrados e mostrarem o terrível objeto mais indistintamente depois do primeiro choque. Tentei levantar a mão para encobrir a visão, porém meus nervos estavam tão atordoados que meu braço não conseguia obedecer totalmente minha vontade. Quase enlouquecido, ainda me encontrei capaz de lançar uma mão para repelir a fétida aparição que estava tão próxima, quando em um cataclísmico segundo de pesadelo cósmico e infernal acidente, meus dedos tocaram a pata apodrecida estendida do monstro além do arco dourado.

Não gritei, mas todos os demônios maléficos que viajam no vento noturno gritaram por mim, pois no mesmo segundo recaiu sobre minha mente uma única e breve avalanche de memórias insuportáveis. Eu sabia naquele segundo tudo o que acontecera, lembrei-me de além do terrível castelo e das árvores, e reconheci o edifício alterado em que eu estava agora, e reconheci, a mais terrível de todas, a abominação profana que permanecia encarando ante a mim, assim que retirei meus dedos sujos dela.

Mas no cosmos existe tanto bálsamo quanto amargura, e esse bálsamo é nepente. No supremo horror daquele segundo, eu esqueci o que me horrizara, e a explosão de memória negra desapareceu em um caos de imagens ecoantes. Em um sonho, escapei daquele amontoado assombrado e amaldiçoado, e corri rápida e silenciosamente ao luar. Quando retornei ao cemitério de mármore e desci os degraus, encontrei a porta do alçapão imóvei, mas eu não me lamentei, pois odiava o antigo castelos e as árvores. Agora viajo com os jocosos e amigáveis demônios no vento noturno, e me divirto entre as catacumbas de Nephren-Ka no desconhecido e vedado vale de Hadoth junto ao Nilo. Eu sei que a luz não é para mim, salvo a da lua sobre as sepulturas de pedra de Neb, nem alguma alegria exceto as festas anônimas de Nitócris abaixo da Grande Pirâmide, no entanto, em minha nova natureza selvagem e liberdade, quase agradeço a amargura da alienação.

Pois apesar do nepente ter me acalmado, sempre saberei que sou um forasteiro, um estranho neste século e entre aqueles que ainda são homens. Isso eu soube desde que estiquei meus dedos para a abominação dentro daquela grande moldura dourada e toquei a superfície fria rígida de um espelho polido.



Tradução: Mimi Zanetti


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2020