• Mimi Zanetti

Jerusalem’s Lot: a história da cidade fictícia de Stephen King e seus vampiros

Jerusalem’s Lot é uma cidade fictícia situada no Maine que aparece em diversas obras de Stephen King, sendo as principais delas: Jerusalem’s Lot, conto publicado pela primeira vez em 1978 na coletânea Sombras da Noite, conta o início de todos os eventos na cidade; Salem/A Hora do Vampiro, romance de 1975; e A Saideira, conto também publicado em Sombras da Noite, parte final sobre a cidade e seus temíveis segredos.


História


A cidade foi fundada em 1710 por um grupo dissidente de fé puritana liderada por James Boon, porém suas práticas eram de natureza ocultista. Em 1765, Jerusalem's Lot se torna um município adjunto à Preacher’s Corners.


Em suas proximidades, os irmãos Robert e Philip Boone constroem a casa chamada Chapelwaite, em 1782. Ambos eram descendentes de Boon, porém não tinham ciência disso.


Em 1789, Philip Boone obtém um livro chamado De Vermis Mysteriis e pouco tempo depois toda a população da cidade desapareceu, junto com Boone e o ancião Boon. O local permanece inabitado até 1896.


Mapa de Jerusalem's Lot por Glenn Chadbourne

Jerusalem's Lot nas obras de Stephen King


Jerusalem’s Lot (1978):


É um conto epistolar (em forma de cartas e trechos de diário) que se passa em 1850 e mostra as correspondências enviadas por Charles Boone, sobrinho-neto de Robert Boone, que se muda para Chapelwaite junto com seu criado Calvin McCann.


Logo nos primeiros momentos, a dupla se encontra rodeada na velha casa por sons estranhos, os quais julgam ser vindos de ratos. A mansão, herança de um falecido primo de Boone, é temida por habitantes locais que a chamam de “amaldiçoada”, e hostilizam os novos moradores.


Em uma expedição pelos arredores da cidade, Boone e Calvin chegam à cidade fantasma de Jerusalem’s Lot, onde têm acesso ao antigo grimório De Vermis Mysteriis.


“Fechei o livro e olhei para as palavras impressas no couro: De Vermis Mysteriis. Meu latim está enferrujado, mas aproveitável o suficiente para traduzir: Os Mistérios do Verme.”


Que relações tinha Philip Boone com Jerusalem’s Lot?

Relações de sangue ela disse, num tom sombrio. A Marca da Besta estava nele, embora caminhasse com as roupas do Cordeiro. E na noite de 31 de outubro de 1789, Philip Boone desapareceu… e com ele a população inteira daquele maldito povoado.”


Artistas (da esquerda p/ a direita): Glenn Chadbourne, David Lee Ingersoll, Glenn Chadbourne e Agustin SB.

“Deum vobiscum magna vermis…”

“Gyyagin vardar Yogsoggoth! Verminis! Gyyagin! Gyyagin! Gyyagin!”

Gyyagin vardar! gritei. Servo de Yogsoggoth, o Sem Nome! O Verme Além do Espaço! Comedor de estrelas! Aquele que Cega o Tempo! Verminis! É a chegada da Hora da Complitude, o Momento de Dilacerar! Verminis! Alyah! Alyah! Gyyagin!”


Ao final do conto, o ano é de 1971 e é mencionado que há um novo morador em Chapelwaite: James Robert Boone, último descendente de James Boon.


E o que é o De Vermis Mysteriis? Trata-se de um grimório fictício que apareceu pela primeira no conto O Vampiro das Estrelas de Robert Bloch, publicado em 1935 (leia neste post o conto traduzido na íntegra). Escrito em latim, possibilita a invocação de horrores inimagináveis. Está presente em diversas obras de diferentes autores, incluindo August Derleth e H.P. Lovecraft.


Yogsoggoth provavelmente é uma variável da deidade Yog-Sothoth, criada por H.P. Lovecraft. Pertence ao grupo dos Deuses Exteriores, e é o progenitor de Cthulhu.



A Hora do Vampiro/‘Salem’s Lot (1975):


Pai, conceda-me seus favores. Senhor das Moscas, conceda-me seus favores. Eu lhe trago carne pútrida e malcheirosa. Ofereço esse sacrifício por seus favores e trago com a mão esquerda. Dê-me um sinal neste terreno, consagrado em seu nome. Espero um sinal para iniciar sua obra.

(...)

Não se ouviu mais nada, fora o som da brisa. O vulto permaneceu silencioso e pensativo por um instante. Depois se inclinou e se ergueu com uma criança em seus braços.

Trouxe-lhe isto.

E o indizível se fez.”


Este é o segundo romance publicado por Stephen King, e o autor já declarou ser uma de suas obras favoritas.


1975: Ben Mears é um escritor que passou a infância em Jerusalem’s Lot, e anos depois da sua partida ele retorna à cidade para escrever um livro sobre a infame Mansão Marsten. Nela, seu antigo proprietário (Hubbie Marsten) se suicidou enforcado, logo após matar a esposa com um tiro em 1939.


“HUBERT BARCLAY MARSTEN


6 de outubro de 1889

12 de agosto de 1939


O anjo da Morte

empunhando a brônzea Lâmpada

além dos portões dourados

levou-o a turvas Águas


Que Deus o conserve lá”


Tal casa foi comprada por um negociante europeu chamado Kurt Barlow, que mantém um antiquário na cidade juntamente com seu soturno sócio, Richard Straker. A chegada dos três forasteiros (Mears, Barlow e Straker) coincide com o início de estranhos acontecimentos em Jerusalem’s Lot, como o desaparecimento de uma criança e a estranha doença que acomete seu irmão.


Não demora muito para que a cidade submerja em um caos silencioso que acomete a maioria de seus moradores. Como o próprio título em português sugere, ‘Salem’s Lot fica infestada de vampiros. O escritor junta forças com outros habitantes para combater esse mal, em especial o garoto Mark Petrie.


É um livro sublimemente escrito por Stephen King que ganhou três adaptações (leia mais abaixo sobre elas). A narrativa mostra mais a história recente da cidade, que foi destruída por um incêndio na década de 1950, mais um episódio em sua estranha trajetória.


Capas das edições brasileiras: Editora Ponto de Leitura (esquerda) e Suma de Letras (direita).

A Saideira/One For The Road (1978):


A história se passa dois anos após os acontecimentos do romance A Hora do Vampiro e é narrada por Booth. O personagem se encontra no bar de Tookey, na cidade de Falmouth, durante uma nevasca violenta, quando um forasteiro debilitado pelo frio entra e pede ajuda para sua esposa e filha. Ambas ficaram no carro preso pela neve a alguns quilômetros do local, próximo ao que sobrou de Jerusalem’s Lot.


Booth e dono do estabelecimento hesitam, mas amparam o homem e se dispõem ir até o carro. O resto é história.


“Tirei o crucifixo de dentro da minha camisa e o mostrei a ele. Nasci e fui criado como evangélico, mas a maioria das pessoas que vivem perto de Lot usam alguma coisa — crucifixo, medalha de São Cristóvão, rosário, alguma coisa. Porque há dois anos, no espaço de um sombrio mês de outubro, Lot se tornou má.”


O conto é breve e auto explicativo, não é necessário ter lido o romance para entendê-lo. É a penúltima história do livro de contos Sombras da Noite (Jerusalem’s Lot é o primeiro).


Outras obras em que é mencionada:


  • O Iluminado (romance - 1977)

  • A Zona Morta (romance - 1979)

  • O Corpo (novela - 1982)

  • O Cemitério (romance - 1983)

  • O Apanhador de Sonhos (romance - 2001)

  • Doutor Sono (romance - 2013)

  • Revival (romance - 2014)

  • A Torre Negra (três últimos livros da série)


Adaptações



Os Vampiros de Salem/Salem’s Lot (1979): a primeira adaptação foi lançada em forma de minissérie e transmitida pelo canal CBS. A direção ficou por conta de Tobe Hooper (O Massacre da Serra Elétrica, Poltergeist), com roteiro de Paul Monash. É bem fiel ao livro, ainda que alguns personagens tenham sido excluídos. O visual do vampirão mestre é uma clara referência ao Nosferatu, longa alemão de 1922.



Certamente algumas cenas serviram de inspiração para outros filmes de vampiros subsequentes, como Os Garotos Perdidos (1987) de Joel Schumacher. Um filme mediano.



Os Vampiros de Salem: O Retorno/A Return To Salem's Lot (1987): sequência direta do primeiro filme, co-escrita e dirigida por Larry Cohen (A Coisa, Nasce Um Monstro). Michael Moriarty, um antropólogo de caráter duvidoso leva seu filho rebelde (que não vê há três anos) para sua cidade natal, Jerusalem’s Lot.


Não demora muito para que os vampiros deem as caras por ali, e as criaturas agora e mostram primorosamente organizadas, coagindo Michael a escrever a história dessa sinistra comunidade.



As atuações são ridículas e muitas situações são patéticas, como a dos vampiros explicando que não são afetados por espelhos ou alho. Não vale a pena perder uma hora e meia assistindo esse filme.



A Mansão Marsten/Salem’s Lot (2004): essa é a segunda adaptação do romance A Hora do Vampiro (e tão longa quanto a primeira), estrelando Rob Lowe como Ben Mears. Mikael Salomon (O Enigma de Andrômeda, Nova York em Pânico) ficou com a direção, e o roteiro é de Peter Filardi (Linha Mortal, Jovens Bruxas).


É relativamente fiel ao livro, fazendo algumas alterações na narrativa. O ponto positivo fica por conta da utilização de personagens e situações que não aparecem no filme de 1979. O próprio Kurt Barlow foi retratado com mais fidelidade ao livro, perdendo aquele visual artístico e mudo, e a relação entre o trio Ben Mears, Susan Norton e Matt Burke (ausente no filme anterior) foi bem explorado.



Alguns personagens também foram melhor interpretados como Straker, sendo muito mais charmoso e sinistro com Donald Sutherland no papel. O Mark Petrie de Dan Byrd também se sai melhor nessa adaptação.


Por mais que Vampiros de Salem tenha todo o charme dos anos 70/80 e a boa direção de Tobe Hooper com suas cenas clássicas, A Mansão Marsten me agradou mais.


Fontes

Wikipedia: Jerusalem's Lot (Stephen King)

Lovecraft Fandom: Yog-Sothoth

The King of Castle Rock: Jerusalem's Lot: The Dark History

As cidades de Stephen King: Jerusalem’s Lot