• Mimi Zanetti

Haïta o Pastor - Ambrose Bierce (tradução)

Hastur (O Impronunciável, Aquele Que Não Deve Ser Nomeado, Assatur, Xastur, H'aaztre ou Kaiwan), é uma deidade integrante dos Mitos de Cthulhu. Sua primeira aparição foi no conto de Ambrose Bierce, Haïta o Pastor, publicado na na revista Wave em janeiro de 1893. Sua figura era de um deus benevolente, protetor dos pastores. Este conto também fez parte das antologias Can Such Things Be? e Tales of Soldiers and Civilians do autor (ambos sem publicação em português).



Posteriormente em 1895, na publicação da coleção de contos O Rei Amarelo de Robert Chambers, Hastur é mencionado. Tal livro foi lido por H.P. Lovecraft em 1927, servindo como grande fonte de inspiração para os Mitos de Cthulhu, e desta vez Hastur aparece em Um Sussurro nas Trevas (1931). Mas foi August Derleth que moldou Hastur como um dos Grandes Antigos, descendente de Yog-Sothoth e meio irmão de Cthulhu, em sua obra O Retorno de Hastur.


Leia o conto abaixo na íntegra:


HAÏTA O PASTOR


Ambrose Bierce



No coração de Haïta, as ilusões da juventude não foram suplantadas pela idade e a experiência. Seus pensamentos eram puros e agradáveis, pois sua vida era simples e sua alma desprovida de ambição. Levantava-se ao amanhecer e saía para orar no santuário de Hastur, o deus dos pastores, que o escutava e ficava satisfeito. Após a realização deste rito piedoso, Haïta abria o portão do aprisco e, com a mente alegre, dirigia seu rebanho para longe, enquanto comia sua refeição matinal de coalhada e bolo de aveia, ocasionalmente parando para adicionar algumas bagas, frias com o orvalho, ou para beber da água que saía das colinas, que juntavam-se ao rio no meio do vale e eram levadas junto com ele, perdendo-se em algum lugar.


Durante o longo dia de verão, enquanto suas ovelhas arrancavam a boa grama que os deuses haviam feito crescer para elas, ou se deitavam com suas patas dianteiras dobradas sob seus peitos e ruminavam, Haïta, reclinado à sombra de uma árvore ou sentado em uma pedra, tocava uma música tão doce em sua harmônica que às vezes, pelo canto do olho, ele vislumbrava as deidades silvestres menores inclinando-se para fora do bosque para ouví-lo, mas se ele olhasse diretamente para elas, elas desapareciam. A partir disso, pois talvez pensasse que não chegaria a se transformar em uma de suas próprias ovelhas, deduziu solenemente que a felicidade poderia vir se não for solicitada, mas se procurada, nunca seria encontrada. Porque depois de Hastur, que nunca havia revelado a si mesmo, o que Haïta mais valorizava era o amigável interesse de seus vizinhos, os tímidos imortais do bosque e do riacho. Ao cair da noite, dirigia seu rebanho de volta ao aprisco, assegurava-se de que o portão estava bem fechado, e retirava-se para sua caverna para descansar e sonhar.


Assim passava a sua vida, um dia após o outro, salvo quando as tempestades proferiam a ira de um deus ofendido. Então Haïta, recolhido em sua caverna, com o rosto escondido em suas mãos, rezava para que somente ele fosse punido por seus pecados e o mundo salvo da destruição. Às vezes, quando havia uma grande chuva e a corrente transbordava, obrigando-o a exortar seu apavorado rebanho para os planaltos, ele intercedia pelas pessoas nas cidades que, como haviam lhe contado, vivam na planície além das duas colinas azuis que formavam a entrada de seu vale.


— É gentil de sua parte, ó Hastur — ele orava, — dar-me montanhas tão próximas de minha habitação e de meu aprisco, para que eu e minhas ovelhas possamos escapar das torrentes iradas. Mas tu deves livrar o resto do mundo de alguma maneira que desconheço, ou não poderei mais lhe reverenciar.


E Hastur, sabendo que Haïta era um jovem que mantinha sua palavra, poupou as cidades e desviou as águas para o mar.


E assim havia vivido sempre. Ele não podia conceber qualquer outro modo de existência. O sagrado eremita que habitava a entrada do vale, a uma hora de distância, de quem ele havia ouvido a história das grandes cidades onde moravam pessoas—pobres almas!—que não tinham ovelhas, não sabiam dar razão aos tempos antigos, durante os quais ele deveria ser pequeno e indefeso como um cordeiro.


Foi pensando nesses mistérios e maravilhas, e naquela terrível transformação em silêncio e decadência, que ele teve certeza de que alguma hora aconteceria com ele, como ele havia visto acontecer com tantos de seu rebanho—como acontecia com todos os seres vivos, exceto os pássaros—que Haïta tomou ciência do quão miserável e desesperançoso era o seu destino.


— É necessário — disse ele, — que eu saiba de onde e como vim. Pois como alguém pode cumprir seus deveres sem entender as razões pelas quais lhe foram confiados? E que contentamento posso ter quando não sei quanto tempo isso irá durar? Talvez antes de outro nascer do sol eu possa ter me transformado, e então o que será das ovelhas? O que será de mim?


Pensando nessas coisas, Haïta ficou melancólico e sombrio. Ele não conversava mais alegremente com seu rebanho, nem corria com entusiasmo para o santuário de Hastur. Em cada brisa, ele ouvia sussurros de divindades malignas cuja existência ele observava pela primeira vez. Toda nuvem era o presságio de um desastre, e a escuridão estava cheia de horrores. De sua harmônica não saía nenhuma melodia, apenas um lamento sombrio. Os espíritos silvestres e ribeirinhos não se apinhavam mais no bosque para escutá-lo, mas fugiam do som, ele percebeu pelas folhas agitadas e pelas flores tortas. Relaxou sua vigilância e muitas de suas ovelhas se desviaram para as colinas e se perderam. Aquelas que permaneceram, ficaram magras e doentes por falta de bons pastos, pois ele, ao invés de buscar novas pradarias, as conduzia dia após dia ao mesmo local, abstraído em seus pensamentos, meditando sobre a vida e a morte—e a imortalidade que ele desconhecia.


Certo dia, enquanto se entregava às reflexões mais sombrias, saltou repentinamente da rocha sobre a qual sentava-se, e com um gesto decidido com a mão direita, exclamou: — Eu não vou mais suplicar pelo conhecimento que os deuses retêm. Eles têm o dever de não me fazer mal. Farei meu dever da melhor maneira possível, e se eu errar, que a culpa recaia sobre suas próprias cabeças!


De repente, enquanto falava, um grande brilho recaiu sobre ele, fazendo-o olhar para cima. Ele pensou que o sol havia mergulhado em uma fenda nas nuvens, mas não havia nuvens. E não mais do que um braço de distância, estava parada uma bela donzela. Tão bela era ela, que as flores sobre seus pés dobravam suas pétalas e suas inclinavam suas corolas em sinal de submissão. Tão doce era sua aparência, que beija-flores aglomeravam-se diante de seus olhos, quase empurrando seus bicos sedentos para dentro deles, e as abelhas selvagens voavam quase em torno de seus lábios. E tão intenso era seu brilho, que todos os objetos desviavam suas sombras, lançando-as aos seus pés, girando enquanto ela se movia.


Haita estava em transe. Ele se ajoelhou diante dela em adoração, e ela colocou uma mão sobre sua cabeça.


— Venha, — ela disse, com uma voz que ressoava todos os sinos de seu rebanho. — Venha, não deves me adorar, pois não sou deusa, mas se tu és verdadeiro e obediente, permanecerei contigo.


Haïta segurou sua mão, e levantou-se, gaguejando sua alegria e gratidão, e assim, ficaram lado a lado e sorriram olhando-se. Ele a fitava com reverência e arrebatamento. Ele disse: — Peço-te, adorável dama, diga-me teu nome, e como e de onde vens.


Ao ouvir essas palavras, ela colocou um dedo sobre seus lábios como um aviso e começou a se retirar. Sua beleza sofreu uma visível alteração que o fez estremecer sem saber por que, pois ela continuava linda. A paisagem foi obscurecida por uma sombra gigante que varria o vale com a velocidade de um abutre. Na obscuridade, da figura da donzela ficou turva e indistinta, e sua voz parecia vir de longe, com um triste tom de censura: — Jovem presunçoso e ingrato! Deverei logo deixar-te? Por que quebras tão rapidamente o eterno pacto?


Incalculavelmente triste, Haïta caiu de joelhos e implorou-lhe que ficasse. Logo, levantou-se e a buscou na escuridão profunda, correndo em círculos, chamando-a em gritos, mas tudo em vão. Ela já não estava mais visível, mas pode ouvir sua voz saindo da escuridão: — Não, não ficarás comigo enquanto me procura. Vai fazer teu dever, pastor sem fé, ou nunca mais nos encontraremos.


A noite caiu, os lobos uivavam nas colinas e as ovelhas aterrorizadas se aglomeravam aos pés de Haita. Ocupado com as demandas do momento, ele esqueceu sua decepção, conduziu as ovelhas ao redil, e voltou ao local de culto abrindo seu coração em gratidão a Hastur por lhe permitir salvar o seu rebanho. Em seguida, retirou-se para sua caverna e dormiu.


Quando Haita acordou, o sol estava alto e brilhava na caverna, iluminando-a com seu esplendor. E ali ao lado dele, estava sentada a donzela. Ela sorriu com um sorriso que parecia a música visível de sua harmônica. Ele não ousou falar, temendo ofendê-la como antes, pois não sabia o que podia se atrever a dizer.


— Porque fizestes teu dever com o rebanho, e não esquecestes de agradecer a Hastur por manter os lobos afastados na noite, — ela disse, — vim a ti novamente. Queres ter-me como companhia?


— Quem não iria querer-te para sempre? — respondeu Haita. — Oh! Nunca mais me deixe até que eu… até que eu me transforme e fique em silêncio e imóvel.


Haita não tinha uma palavra para a morte.


— Quisera, de fato, — ele continuou, — que você fosse do meu próprio sexo, que nós pudéssemos lutar e assim nunca nos cansaríamos um do outro.


Com estas palavras, a donzela se levantou e saiu da caverna. Haïta saltou de seu leito de galhos perfumados para alcançá-la e detê-la, e observou, para sua surpresa, que a chuva caía e a corrente no meio do vale transbordava. As ovelhas baliam aterrorizadas, pois as águas invadiam o aprisco. E havia perigo para as cidades desconhecidas da planície distante.


Muitos dias se passaram antes que Haïta visse a donzela novamente. Um dia, retornava da entrada do vale, para onde fora levando leite de ovelha, bolo de aveia e frutas para o sagrado eremita, que era muito velho e fraco para providenciar comida.


— Pobre velho! — ele disse em voz alta, enquanto voltava para casa. — Voltarei amanhã e o levarei nas costas para minha própria casa, onde posso cuidar dele. Sem dúvida, é para isso que Hastur me criou todos esses anos, dando-me saúde e força.


Enquanto ele falava, a dama, vestida com trajes brilhantes, encontrou-o no caminho com um sorriso que lhe tirou o fôlego.


— Eu vim de novo, — disse ela, — para morar contigo agora, se me quiseres, pois não desejo viver com mais ninguém. Terás aprendido a sabedoria, e estarás disposto a aceitar-me como sou, nem importar-se em saber.


Haïta se jogou aos seus pés. — Bela criatura, — exclamou, — se queres aceitar toda a devoção de meu coração e alma, que reverenciam a Hastur, serão teus para sempre. Mas, ai de mim! És caprichosa e instável. Antes que amanheça, posso perder-te novamente. Prometa-me, peço-te, que, no entanto, em minha ignorância posso te ofender, e saberás perdoar-me e permanecerás sempre comigo.


Mal terminou de falar quando uma tropa de ursos saiu das colinas, correndo em sua direção com bocas vermelhas e olhos ardentes. A donzela desapareceu novamente, e ele correu para salvar sua vida. Não parou até estar na cabana do sagrado eremita, de onde havia partido. Apressadamente, bloqueou a porta contra os ursos, jogou-se no chão e chorou.


— Meu filho, — disse o eremita do seu sofá de palha, recém colhido naquela manhã pelas mãos de Haita, — não estás chorando pelos ursos, diga-me que tristeza recaiu sobre ti, pois a velhice pode curar as dores da juventude tanto com bálsamo como com sabedoria.


Haita contou-lhe tudo: como três vezes havia encontrado a radiante dama, e como três vezes ela o abandonara. Ele relatou minuciosamente tudo o que se passou entre eles, sem omitir nenhuma palavra.


Quando terminou, o sagrado eremita ficou em silêncio por um momento, depois disse: — Meu filho, prestei atenção à sua história e conheço a donzela. Eu mesmo a vi, assim como muitos. Saiba, então, que seu nome, o que ela sequer permite que você pergunte, é Felicidade. Bem dissestes a verdade, que ela é caprichosa. Ela impõe condições que nenhum homem pode cumprir, e a desobediência é punida com a deserção. Ela só vem quando não é chamada, e não poderá ser questionada. À menor manifestação de curiosidade, um sinal de dúvida, uma expressão de receio, ela se vai! Por quanto tempo você a teve antes que ela partisse?


— Apenas um único instante —, respondeu Haïta, corando de vergonha pela confissão. — Todas as vezes a espantei em um momento.


— Jovem infeliz, — disse o sagrado eremita, — se não fosse por sua indiscrição, poderia tê-la por um instante a mais.




Tradução: Mimi Zanetti


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2020