• Cultista

O Gato Preto - Edgar Allan Poe (resenha + análise)

Logo na primeira vez que eu li O Gato Preto na infância fiquei obcecada, e até hoje permanece como o meu conto favorito de Edgar Allan Poe. Sua primeira publicação foi na revista americana The Saturday Evening Post em 19 de agosto de 1893, e teve reações satisfatórias.


A gatinha Negra e o exemplar Medo Clássico da Darkside Books

O protagonista, é um homem boêmio que vive com a esposa e seus vários animais de estimação, entre eles um grande gato preto chamado Plutão. Um dia, ao voltar para casa embriagado, agride o gato arrancando-lhe um olho com um canivete. O gato se recupera, porém com o tempo o amor do dono pelo bichano foi se transformando em completa aversão, até que acaba assassinando o gato.


Após um tempo, sua esposa encontra um gato grande e preto, similar ao falecido gato executado exceto por uma pequena mancha branca em seu peito. O aparecimento do novo gato e uma sucessão de eventos levará o protagonista à ruína.


Narrado em primeira pessoa, a história traz temas como a crueldade animal, assassinato, e principalmente a culpa. Por esse motivo, o conto é constantemente comparado à outra história do mesmo autor: The Tell-Tale Heart (traduzido como “O Coração Delator” na edição da Darkside Books).



Em uma breve análise (com spoilers, prossiga somente se já tiver lido o conto!!!), devido ao seu alcoolismo o narrador é um personagem não confiável, não tem como o leitor ter certeza de seu relato. No começo do conto ele alega ter sido sempre amável com animais, e em uma análise do próprio personagem, sua mudança de comportamento e propensão à crueldade se dá devido ao álcool.


A imagem do gato preto remete à superstição, uma vez que o próprio narrador diz que sua esposa acreditava que gatos pretos eram bruxas disfarçadas. O nome do animal, Plutão (Pluto na versão original em inglês), sugere uma alusão ao deus dos mortos da mitologia romana.


O conto continua seguindo uma linha supersticiosa e psicológica quando após o enforcamento de Plutão e posterior incêndio da casa, o narrador vê a forma de um gato enforcado na parede dos escombros. O aparecimento de um outro gato com as mesmas características de Plutão, incluindo a ausência de um olho, expõe como se o narrador estivesse sendo assombrado pelos seus próprios atos de crueldade.


O sentimento de culpa do narrador começa a transparecer quando a mancha do peito do novo gato transforma-se em um desenho de forca. A simbologia da culpa fica explícita quando ao ver sua esposa morta desemparedada pela polícia, o narrador contempla o gato na cabeça da falecida, chegando à conclusão que o havia emparedado junto.



Adaptações cinematográficas:



O Gato Preto/The Black Cat (1934): apesar do título e do nome de Edgar Allan Poe aparecer em seus créditos, o filme pouco tem a ver com o conto do autor, apenas com algumas aparições de um gato preto. Bela Lugosi dá a vida à Dr. Vitus Werdegast, um psiquiatra que divide uma cabine de trem com o casal Peter (David Manners) e Joan Alison (Julie Bishop). Após um acidente, o trio se hospeda na antiga mansão de um amigo do médico, o arquiteto Hjalmar Poelzig, vivido por Boris Karloff. O que os Alison não sabem é que um sacrifício satânico está prestes a acontecer. (7/10)




Maniac/Sex Maniac (1934): um filme de baixíssimo orçamento que traz alguns elementos de O Gato Preto, e faz referências a outro conto de Edgar Allan Poe, Os Crimes da Rua Morgue. Um ajudante de um cientista louco toma o seu lugar após sua morte, copiando sua aparência e trejeitos. Tratando um de seus “pacientes”, o falso doutor acaba por causar-lhe um comportamento de extrema violência. Foi dirigido por Dwain Esper, e como outros filmes do mesmo diretor, seu gênero é terror/exploitation. Tem seu mérito por ser um filme apelativo da década de 30. (3/10)



O Gato Preto/The Black Cat (1941): dirigido por Albert S. Rogell e estrelado por Basil Rathbone e Bela Lugosi (em um papel menor), a trama traz a velha senhora Henrietta Winslow cercada por seus gananciosos parentes, que esperam por sua morte, interessados em sua herança. Com sua morte misteriosa, se inicia uma busca pelo responsável de seu assassinato. O filme é uma mistura de terror com comédia, e é vagamente inspirado no conto de Edgar Allan Poe, uma vez que o tal gato preto aparece na forma de estátua que guarda as urnas dos gatos falecidos de Henrietta. (4/10)



Muralhas do Pavor/Tales of Terror (1962): o filme é dividido em três partes: a primeira é inspirada no conto Morella; a segunda é a junção de O Gato Preto com O Barril de Amontillado; e a última é O Estranho Caso do Sr. Valdemar. O roteiro foi escrito por Richard Matheson, e obra foi dirigida por Roger Corman, conhecido por suas diversas adaptações de Edgar Allan Poe, e particularmente este é um de seus filmes que mais me agrada. A segunda parte traz Peter Lorre no papel de Montresor Herringbone, um bêbado que é expulso do bar e conhece Fortunato Luchresi (interpretado por Vincent Price) em uma degustação de vinhos. Luchresi ao final do evento conhece a esposa de Herringbone, e acabam ficando íntimos, despertando o desejo de vingança do marido traído. Vincent Price além de atuar em três papéis diferentes, faz a narração posterior a cada segmento. (8/10)



Gato Negro/Gatto Nero (1981): este terror dirigido pelo italiano Lucio Fulci traz o cenário de um vilarejo inglês assombrado por mortes e acidentes misteriosos associados a um gato preto. As suspeitas recaem sobre um médium, que seria capaz de controlar o felino telepaticamente. Ótimas referências do conto aparecem no filme, recheado de closes nos olhos e (d)efeitos especiais. (6/10)



Dois Olhos Satânicos/Two Evil Eyes (1990): o filme é dividido em dois episódios, o primeiro deles dirigido por George Romero e é baseado no conto O Estranho Caso do Sr. Valdemar. A segunda parte é dirigida por Dario Argento, seu plot principal tem como base o conto O Gato Preto, e tem passagens de O Poço e o Pêndulo e O Barril de Amontillado. A namorada do fotógrafo forense Rod Usher adota um gato preto, porém ele não fica muito contente com a ideia, tentando se livrar do animal. Porém, a tarefa será mais difícil do que ele pensava. (6.5/10)


Sobre o livro que ilustra a capa do post:

Edgar Allan Poe - Medo Clássico Volume 1

Capa dura: 384 páginas

Editora: DarkSide Books

Edição: 1ª (2 de fevereiro de 2017)

Idioma: Português


Fontes:

Wikipedia - Tales of Terror; The Black Cat (1934 film); Maniac (1934 film); The Black Cat (1981 film); The Black Cat (1941 film); Two Evil Eyes; The Black Cat (short story)

Interesting Literature

Enotes



A imagem de capa do post foi gentilmente cedida pela Jackeline (@jackelinetrilha).

2 comentários