• Mimi Zanetti

Confissões do Crematório - Caitlin Doughty (resenha)

É bem clichê falar isso, mas a não ser que você seja um tardígrado ou um hidrozoário imortal, a única certeza que você tem na vida é a de que você vai morrer. Você, eu, nossas famílias, e praticamente tudo que é vivo nesse planeta. Mas mesmo sendo tão natural, a morte ainda é tratada como tabu em muitas culturas.


Esse é o tema de Confissões do Crematório - Lições Para Toda a Vida, primeiro livro da escritora, blogueira e agente funerária Caitlin Doughty, lançado em 2016 no Brasil pela Darkside Books.



Caitlin nasceu no Havaí e começou a se interessar pela morte ainda quando criança, ao ver um acidente (possivelmente) mortal dentro de um shopping. Graduada em história medieval, aos 22 anos se mudou para São Francisco e começou a trabalhar no crematório de uma funerária, sem nunca ter atuado na área anteriormente.


Nesse livro, Caitlin compartilha suas experiências nesse novo trabalho em que teve que encarar a morte de frente. Seu ofício incluía buscar cadáveres, prepará-los para o velório, participar de embalsamento, e principalmente, operar o forno crematório.


"Os cadáveres mantêm os vivos presos à realidade. Eu tinha vivido toda a minha existência até começar a trabalhar na Westwind relativamente distante de mortos. Agora eu tinha acesso a montes deles, empilhados no freezer do crematório. Eles me obrigavam a encarar minha própria morte e a morte dos meus entes queridos."


A morte, ainda que natural, nem sempre é bonita. A decomposição desfigura os seres vivos, fazendo com que adquiram aparências e odores um tanto desagradáveis. E não se limita aos idosos, aos acidentes, e às causas naturais. Apesar do livro manter um tom de bom humor em quase todo seu conteúdo, certamente o capítulo mais triste é aquele em que a autora relata as vezes em que teve que cremar bebês.


Mas Confissões do Crematório não é só uma compilação de memórias e experiências de Caitlin durante o tempo em que trabalhou nessa agência funerária. O livro contém dados antropológicos, históricos e sócio-culturais interessantíssimos. É difícil concluir a leitura sem dar uma olhadinha no Google para ler um pouquinho sobre algum assunto mencionado.



Há informações sobre os rituais tibetanos, o canibalismo post mortem da tribo indígena brasileira Wari', os funerais egípcios, a história do embalsamento, entre diversos outros tópicos instigantes. É uma obra importantíssima sobre o luto e a aceitação (ou não) da morte.


O segundo livro da autora, Para Toda a Eternidade, que relata as práticas fúnebres, foi lançado no Brasil pela Darkside Books em 2019. Ela também tem um canal no youtube, Ask a Mortician, onde fala sobre o mesmo tema.


Páginas: 234 Editora: Darkside Books

Tradução: Regiane Winarski