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Artigo: O Verdadeiro Pai Dagon - Robert M. Price

Dagon é um deidade cósmica que integra os Mitos de Cthulhu e fez sua primeira aparição no conto "Dagon" de H.P. Lovecraft, publicado em 1917. Nos Mitos, ele é descrito como uma entidade com características de anfíbios e peixes, e faz parte dos Grandes Antigos.



Em 1982, Robert M. Price publicou no fanzine Crypt of Cthulhu um artigo analisando a verdadeira natureza de Dagon, mostrando as bases históricas da entidade bíblica que pode ter inspirado H.P. Lovecraft.


Leia abaixo o texto integral traduzido:



O VERDADEIRO PAI DAGON


Harold Hadley Copeland*



*Harold Hadley Copeland é um personagem do conto “The Dweller in the Tomb” (“O Habitante da Tumba” em tradução livre) escrito por Lin Carter, e publicado em 1971. O nome foi usado como pseudônimo pelo autor Robert M. Price.


The Real Father Dagon” (ou “O Verdadeiro Pai Dagon”) é um artigo publicado em 1982 na edição #9 Hallowmas, no fanzine Crypt of Cthulhu. Neste texto, o autor questiona a verdadeira natureza da deidade Dagon.


Tradução publicada com autorização de Robert M. Price. Proibida a reprodução parcial ou total deste texto.



Uma das mais pitorescas seitas fictícias de Lovecraft é a “Ordem Esotérica de Dagon”, a qual faz parte de “A Sombra Sobre Innsmouth”. Essa “era sem dúvida uma coisa degradada, quase pagã, importada do Oriente”, um “misterioso culto local” que garantia uma boa safra de peixes à cidade portuária, ano após ano. De acordo com a crença do culto, “Todos no grupo de fiéis… nunca morreriam, mas voltariam para a Mãe Hydra e para o Pai Dagon, [de quem] todos nós viemos [um dia]". Em “A Sombra Sobre Innsmouth”, esse Dagon é provavelmente um pseudônimo para Cthulhu, pois esse último é evocado por Zadok Alien imediatamente após sua menção ao “Pai Dagon”. "lä! lä! Cthulhu fhtagn! Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah-nagl fhtagn". Essa última, certamente é a liturgia dos cultistas de Cthulhu em “O Chamado de Cthulhu”, e em “A Sombra” é mencionado que Os Profundos de Innsmouth “ergue-se-iam novamente para o tributo que o Grande Cthulhu almejava.” Dessa forma, Cthulhu pareceria ser o verdadeiro objeto de adoração da “Ordem de Dagon”.


“Dagon” é meramente um nome convencionalizado (conhecido do Velho Testamento) encobrindo a adoração alienígena do desconhecido Cthulhu. Podemos observar o mesmo tipo de coisa em “Os Sonhos na Casa da Bruxa”, onde o que parece uma devoção convencional a Satã é na verdade o culto a Azathoth e Nyarlathotep. Por fim, a gigantesca forma anfíbia vislumbrada no conto “Dagon”, é identificada com “a lenda Filisteu de Dagon, o Peixe-Deus.” Uma vez que essa história é o protótipo de “O Chamado de Cthulhu”, esse titã em forma de peixe é o protótipo do próprio Cthulhu; dessa forma aqui também, “Dagon” é Cthulhu.


A maioria dos leitores vai conhecer, escritores subsequentes a Lovecraft transformaram Dagon em um semideus subserviente a Cthulhu, e o pai d’Os Profundos. Julgamos esses desenvolvimentos serem gratuitos. Mas tamanha é a pós-história de Dagon, que desejamos examinar brevemente a pré história do “Peixe-Deus Filisteu”. Quem era o verdadeiro Pai Dagon?


Dagon (ou “Dagan”) é um deus muito antigo, sendo a divindade chefe do panteão de Ebla no terceiro milênio antes de Cristo. Lá ele era venerado como o “Senhor dos deuses”, “Senhor de Canaã”, e protetor das cidades. Basicamente, ele parece ter sido um deus da fertilidade, e seu nome significa ou “nuvem, chuva” (Giovanni Pettinato, The Archives of Ebla, p. 246) ou “milho” (J. Gray, “Dagon”, The Interpreter's Dictionary of the Bible, Vol. I, p. 756).


No segundo milênio antes de Cristo, a veneração a Dagon é atestada através do Oriente Médio, mas ele parece ter perdido bastante de sua dignidade divina. Na altura da metade desse milênio, sua preeminência como deus da fertilidade passou para Baal, e ele divide com Baal uma posição de subordinação a El, agora o chefe do panteão Canaanita.


Durante o primeiro milênio antes de Cristo, Dagon era adorado mais notavelmente entre os Filisteus, como descrito em algumas histórias famosas encontradas na Bíblia. O Livro dos Juízes narra a destruição do templo de Dagon por Sansão, e o Primeiro Livro de Samuel mostra os igualmente destrutivos efeitos da Arca da Aliança sobre a estátua de Dagon, novamente em um templo Filisteu. Obviamente, os escritores bíblicos tinham pouca afeição pela veneração idólatra a Dagon. Por fim, Jônatas dos heroicos irmãos macabeus destruiu o templo de Dagon em Ashdod em 147 a.C.


O leitor atento terá percebido a ausência de qualquer menção à aparência de peixe desse rascunho de Dagon. Onde é que HPL viu a coisa do “Peixe-Deus”? Tondriau e Villeneuve, em seu livro “Devils and Demons, a Dictionary of Demonology” (em tradução livre: Diabos e Demônios, um Dicionário de Demonologia), alegam que Dagon foi imaginado pelos Filisteus na forma de “um tritão”, mas ao invés disso, essa concepção vem do folclore recente e reflete “a etimologia popular sem apoio de quaisquer fatos conhecidos” (Gray, p 756). A mais antiga referência conhecida a Dagon como semi-peixe aparece nos trabalhos de David Kimchi (1200 d.C.), e a associação mais geral com um peixe pode ser traçada desde Jerônimo (cerca de 400 d.C.). Mas em termos comparativos, isso não foi há tanto tempo. O grande estudioso do Velho Testamento, Julius Wellhausen tentou encontrar uma referência à “peixisse” de Dagon em Samuel 5:4 (“apenas a tromba da [estátua de] Dagon foi deixada à ele”) ao retificar o Hebraico, lendo-se então “apenas sua parte de peixe foi deixada nele.” Mas a maioria das traduções modernas da Bíblia não seguiu isso.


Como vimos, a conexão da fertilidade tem raízes sólidas em ambas evidências bíblicas e arqueológicas, enquanto a associação a peixe não tem. É claro, as duas não são necessariamente incompatíveis. Como Jessie Weston mostrou, o peixe pode de fato ser um símbolo da fertilidade, mas não no caso de Dagon, a conexão nunca é feita em nossas fontes. O resultado de tudo isso é que provavelmente Lovecraft se equivocou ao fazer Dagon um “Peixe-Deus” parte da “lenda Filisteu”.


Dagon parou de ser cultuado, exceto em Innsmouth, mas ele perdurou de forma deturpada na era Cristã nos catálogos de demonologistas medievais. Lá estava ele, rebaixado a padeiro-chefe ou copeiro no Inferno! Considerando que centenas de anos antes, ele estava sendo venerado como o deus supremo em Ebla, isso é uma baita queda! “Como caem os poderosos!”



Tradução: Mimi Zanetti



Leia mais:

Dagon - H.P. Lovecraft (análise)

A Sombra Sobre Innsmouth - H.P. Lovecraft (resenha)


Robert M. Price: site oficial

Necronomicon Press